à medida que as gotas de chuva escorregam pelo vidro do carro em alta velocidade,
Penso na vida, Na chama dada às almas gêmeas, Na cruza de caminhos outros, Na volta pra casa, Na poesia, nos ovos mexidos, No cotidiano... E como seria magnífico ser um avestruz...
Tenho em mim uma ansiedade que não se cala. Respiro para suportar o torpor que me toma os poros todos e seguir vivendo. Sinto que sou essa pessoas há tanto tempo... E nesse ponto a minha ânsia me puxa ao desespero. Tenho que escrever pois me alivia, [como um remédio que busca a solução e as pessoas que buscam os remédios com soluções embutidas.]
A minha solução é viver e pensar e sentir. Ainda que o que sinto me tire a tranquilidade, prefiro. As palavras sem sentido que saem dessa boca inquieta me são indiferentes. No máximo me impedem o contato direto comigo [aquilo que eu poderia alcançar mergulhando no silêncio acolhedor da inexistência das palavras.]
E sinto um pouco mais as palavras querendo sair. Fortemente. Pelas companhias alheias, evito atuar fisicamente com as palavras. Me conformo em mantê-las no papel, Na inexpressividade do que não é dito, mas escrito.
Respeitem minhas dobraduras Minhas bolhas de ar Elas guardam o que é possível guardar da vida Existir é demonstrar o cuidado com o passado. Dentro de mim há ares de dez anos Sobras de tempo, resquícios de tudo Representação das coisas vividas, memórias presentes Locais e não localizadas.
Andei sonhando com a tua mãe, garota.
Ela estava perto, precisando de você.
Mas estava feliz. Como quem come uma mangaba sem saber que fruta é.
E mesmo assim consegue ser feliz.
E ver lindeza nas coisas do mundo,
sejam elas feias ou belas.
Te acalma, garota.
Estive pensando que talvez devêssemos pegar um barco
e buscar os descaminhos da vida,
estar em um lugar que não precise de mais nada (nenhum artifício) para nos deixar contentes.
Satisfação é o estado de equilíbrio entre você, eu e o mundo.
Ou o mundo e nós.
Sejamos satisfeitos.
Espera satisfeita, garota, acalma teu coração (por que tudo passa).
Não vou dizer que sinto muito ou que me arrependo de não ter interferido nos rumos que as histórias tomaram. Não me sinto responsável, muito menos culpada. Sinto falta dos nossos passatempos e de como, um dia, eles foram suficientes.
Não tive a oportunidade de te falar que o caminho pelo qual você escolheu andar, certamente eu não escolheria (como se isso fosse fazer alguma diferença), mas inúmeras vezes te olhei daquele jeitinho peculiar, meio de lado, meio escondido, na esperança de que você escutasse o que eu não queria dizer com todas as palavras, mas sobretudo entendesse o meu silêncio.
Vejo que não serviram os meus olhares-esperançosos-ingênuos.
Tenho por você um amor calado, guardado, daqueles que não precisam de insinuações e externalizações melosas, gosmentas e pegajosas.
Quando eu, carinhosamente, beijo sua cabeça e pergunto como você está, é verdadeiramente colocando para fora o que eu sinto; não é aquele tipo de cumprimento "tudo bem?", que na verdade não faz a mínima questão de ouvir sua resposta. Não é um mero cumprimento de formalidades!
Eu me importo com você, com quem machuca você, com quem se aproxima de ti para o bem, para o mal, ou simplesmente por nada.
Me preocupo com você como uma irmã mais velha, ou como uma amiga que durante muito tempo foi tua companheira de aventuras, mas que agora se resume a um contato próximo.
Peço desculpas se alguém passou despercebido pela minha guarda e chegou até você, te feriu e foi embora... De todo coração, gostaria de ter impedido! Até se fui eu mesma que ultrapassei as barreiras do previsto e te magoei... Desculpas!
Só quero te dizer que o tempo as vezes nos mostra coisas que não queremos ver; as vezes ele ressalta aquilo que as circunstâncias não nos deixam enxergar, mas isso não é necessariamente ruim. Aprenda a ver aquilo que o fator tempo tenta te mostrar. Se as coisas não vão bem por este caminho, tente outro. Talvez um dia você se encontre, ou se perca de vez...
Sinceramente, só não quero ver escondido esse sorriso que é apenas seu.
P.S.: Eu espero sinceramente que não haja reconhecimento da parte de ninguém que resolva ler. São cartas que eu não mando, nem mandaria.
Às vezes paro pra pensar e me pego tendo devaneios de como será minha vida daqui há alguns anos. Queria não pensar nisso, mas é inevitável. Hoje penso que a vida é toda uma questão de reciprocidade, questão de trocas que nos são convenientes. A nossa vida é a reflexão das relações que construímos, as que mantemos. É a troca que acontece em todas essas relações. Tudo aquilo que doamos e o que conseguimos arrecadar; os momentos que a gente vive, incluindo os que fazemos questão de lembrar e os que fazemos questão de esquecer. De todas as formas, o que nós somos e o que podemos ser nunca depende exclusivamente de nós. Nunca é uma construção avulsa, alheia, ou seja, todas as pessoas do seu convívio constroem com você tudo aquilo que você é! Na prática, todo esse processo é tão mecânico que nem nos damos conta. Penso no quão importantes foram as pessoas na minha vida para a construção do que eu sou hoje. E como tudo seria diferente caso elas não tivessem dividido a mágica da vida comigo. Me dou conta, nessa horas, das pessoas importantes que se foram, das que eu ainda conhecerei, dos laços que eu preciso reforçar e alguns que preciso desatar. Nada fácil.
A Lua chegou como ventania Abriu a porta E espalhou suas malas pelos cantos Tinham alças e cheiravam a morangos silvestres
A Lua deitou na Relva e cochilou comigo Depois riu e voltou a dormir Acordou e já era tarde A chuva se esgueirava tentando encobri-la
Eu, como se fosse o Sol, buscava sempre ajudá-la De dia, conduzia-a ao seu destino À noite, me retirava para que ela tomasse de conta do meu
E depois de uma semana A Lua abre a porta E como estrela cadente parte Eu volto a qualquer telhado
(Rodrigo Vaz) ________________________________
Fiquei extremamente radiante ao receber esse poema como presente, resolvi compartilhá-lo! Passei algum tempo na casa de Rodrigo, nos casamos e nos divorciamos em questão de dias. Sete dias, mais precisamente. A partir disso, me sinto tão próxima, tão íntima dele, que não me furto à oportunidade de homenageá-lo. E fico mais feliz ainda ao saber que a porta da sua casa estará sempre aberta à mim.
As pessoas com quem divido a casa têm certa afinidade com animais. Já passaram por aqui muitos gatos, cachorros e alguns gansos. Hoje, sobrevivem apenas 2 cachorros e 3 gatos. Lili, a gata mais velha, foi adotada na Universidade e é uma gata alvinegra, mais negra que alva, um pouco acima do peso ideal, operada, mas com sua vida sexual ativa. Sky, também alvinegro, mais negro que alvo, o gato do meio, tem certo desprezo pelas pessoas que dividem a casa com ele, só se importando com seu órgão sexual. Kima, a caçula, alvinegra, caminhando à obesidade, é caseira e costuma dormir em posição de conchinha com a matriarca da família. Ou qualquer um que a deixe bem quieta. Acredito que é fácil imaginar o motel felino que a casa se transforma quando as duas gatas estão no seu período fértil. Exatamente. Motel, isso mesmo. Não é fácil aceitar outros gatos entrando aqui, mas Sky não se importa em perder o domínio do macho alfa que ele poderia representar.
Certa vez, notei a constante visita de um gato, também alvinegro, que provavelmente mora na rua. Tenho o palpite que ele more na sua, por que não imagino meus gatos invadindo a casa de pessoas estranhas, na verdade, acho que gatos domésticos adquirem certa educação e, pelo menos os daqui, são tão bem servidos que não sentem nem vontade de sair de perto de seus respectivos pratos. Bom, o gato do qual falei foi carinhosamente apelidado de “Boizinho”. Foi dado pelas irmãs gêmeas que tenho de 8 anos que associaram a imagem dele àquelas vacas holandesas que são preta e branca, caríssimas por sinal, mas sendo ele um gato (e não uma gata), chamaram-no assim. Provavelmente se fosse uma gata seria “Vaquinha”. É muita criatividade.
Boizinho freqüenta a casa quase que diariamente. Às vezes me pergunto se as gatas daqui mantém algum relacionamento homossexual, pois Sky, que deveria ter qualquer ciúme, não está nem aí e a Kima, que deveria se jogar às patas do forasteiro, tenta a todo custo impedi-lo de permanecer no convívio familiar. De certa maneira, Lili, sua parceira fixa, também o rejeita dentro de casa e é muito curioso observar esse comportamento. Ontem mesmo, rolou fight. Boizinho insistiu em entrar, Kima foi pra cima e, provavelmente, Lili foi lá apaziguar. Aaaah, certamente é isso. Lili não quer conflito com sua fiel escudeira, Kima, por isso o expulsa de dentro de casa.
No instante que estava saindo de casa, percebi a nossa felina primogênita saindo de casa e correndo atrás do seu macho preferido. Primeiramente não entendi... “ela acabou de expulsá-lo! Mas que safadjinha”... Mas minha curta caminhada ao ponto de ônibus me esclarece algumas coisas, em diversos assuntos, não só coisas fúteis como essa. Mas calma aí, o desfecho é mais interessante.
Fiquei me confrontando e percebi a intenção real da gata. Real não, né? Essa nunca saberei, rs. Mas a ficha caiu sob um aspecto: me vi na pele dela. Na pele, no pelo, enfim. Me enxerguei ali, lutando pelo meu espaço. Boizinho, meu querido, talvez Lili apenas queira um sexo casual, alguns encontros quentes, conversas interessantes, papos descontraídos. A última coisa que ela quer é alguém invadindo o seu espaço, alguém que entre assim, sem pedir licença e queira tomar pra si a vida que ela tem e vive com certo egoísmo. Não no sentido tão pesado da palavra, mas no sentido real. Ela quer sentir, curtir, viver para ela. Ah, podemos julgá-la como egoísta? Só por que ela quer ter o seu próprio espaço, viver sem ninguém que a cobre certas coisas, como um telefonema depois de uma noite juntos?
Saiu na defesa da minha querida e velha Lili, pois, levando para a vida humana e real, as mulheres levaram muito tempo para tomar uma posição como essa, de dominar a relação, expor as suas vontades e fazer somente aquilo que decidissem. Até pouco tempo, mulheres apenas obedeciam e eram renegadas caso não fizessem isso. Em qual momento me sinto no direito de tirar a autonomia da minha felina no que diz respeito aos seus relacionamentos? Ela, no íntimo de sua (in)consciência, sabe o que faz e o que quer.